O meu dilecto fado, que me comove e remove o espírito, aquele que considero o fado de todos os fados, não só pelo poema e pela música que o compõem, mas sobretudo pela ímpar interpretação de Amália Rodrigues, numa trindade artística que deveras constitui uma espécie de entronizada súmula da melodia que caracteriza a benquista maneira de ser do povo português actual.

Os portugueses evoluiram em sensibilidade humana gostosamente fraterna e hodiernamente são em maioria gente sensata que almeja viver em paz para contornar com a maior moderação possível os conflitos que geram a discórdia e a guerra, condenando à inquietação a felicidade dos vindouros.

Para já, apenas disponho dos versos, da ilustração que o todo - que vi, ouvi e reouvi centenas de vezes - me sugeriu e da exemplar interpretação de Christina Branco. Logo que logre acesso à melodia interpretada por Amália - momento assaz único e inesquecível - de imediato a inserirei aqui, substituindo-a por este esclarecimento.


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ABANDONO

Por teu livre pensamento
Foram-te longe encerrar,
Tão longe, que o meu lamento
Não te consegue alcançar
E apenas ouves o vento,
E apenas ouves o mar...

Levaram-te a meio da noite,
A treva tudo cobria...
Foi de noite, numa noite
De todas a mais sombria...
Foi de noite, foi de noite
E nunca mais se fez dia...

Ai, dessa noite o veneno
Persiste em me envenenar...
Oiço apenas o silêncio
Que ficou em teu lugar...
E ao menos ouves o vento,
E ao menos ouves o mar...