«Abandono» é o título de um dos mais delicados e dilectos fados que comove o espírito a ponto de poder considerar-se tema de eleição, não só pelo poema de David Mourão Ferreira e pela música de Alain Oulman, mas sobretudo pela ímpar interpretação de Amália, numa trindade artística que deveras constitui a entronizada súmula da melodia que caracteriza a benquista e nostálgica maneira de ser do povo português.

Os portugueses evoluíram em sensibilidade humana gostosamente fraterna, sendo em maioria gente sensata que almeja viver em paz para contornar com a maior moderação possível os conflitos que geram a discórdia e a guerra, esses trágicos malefícios que condenam ao apoquentamento o presente e o futuro.


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ABANDONO

Por teu livre pensamento
Foram-te longe encerrar,
Tão longe, que o meu lamento
Não te consegue alcançar
E apenas ouves o vento,
E apenas ouves o mar...

Levaram-te a meio da noite,
A treva tudo cobria...
Foi de noite, numa noite
De todas a mais sombria...
Foi de noite, foi de noite
E nunca mais se fez dia...

Ai, dessa noite o veneno
Persiste em me envenenar...
Oiço apenas o silêncio
Que ficou em teu lugar...
E ao menos ouves o vento,
E ao menos ouves o mar...